A literatura brasileira ganha um novo nome promissor com a estreia de Rai Gradowski em Cercas Vivas (Editora Zouk), romance que entrelaça intimidade, nostalgia e suspense em uma trama de amadurecimento. Narrado pela protagonista Bianca, que retorna à casa herdada da avó, o livro mergulha nas memórias afetivas da adolescência, revisitando sentimentos interrompidos, revelando segredos familiares e levantando dilemas que ultrapassam o campo pessoal.
Mais do que um enredo de descobertas, Cercas Vivas se destaca pela relevância cultural: ao trazer uma vivência lésbica ancorada na geração millennial, Rai amplia o espaço de representação na ficção brasileira. Com uma linguagem fluida e coloquial, a autora constrói personagens verossímeis, capazes de dialogar tanto com experiências urbanas contemporâneas quanto com as inquietações universais da identidade e do pertencimento.
A força do livro está no equilíbrio entre a leveza da memória afetiva marcada por referências dos anos 1990 e 2000, como locadoras de vídeo, trilhas sonoras com The Calling e cadernos da Tilibra e a densidade de uma trama que conduz a protagonista a decisões éticas e pessoais inadiáveis. O resultado é um romance que emociona e provoca reflexão, reafirmando a literatura como espaço de resistência e de escuta para vozes historicamente marginalizadas.
Para além da história de Bianca, Cercas Vivas é também o retrato da jornada de uma autora que transforma observações cotidianas em matéria literária. Gradowski lapidou a obra em oficinas de escrita com nomes como Carol Bensimon, Julia Dantas e Cacá Joanello, amadurecendo uma narrativa que hoje se inscreve com vigor na cena literária curitibana.
Nascida em Curitiba em 1989, advogada e especialista em Escrita Criativa, Rai já vinha construindo trajetória com contos e colaborações em coletâneas, mas é com seu romance de estreia que reafirma seu lugar como uma das novas vozes potentes da literatura brasileira.
Em tempos de incerteza e transformações, Cercas Vivas se impõe como um convite à memória, à escuta e à coragem de enfrentar o que herdamos — seja uma casa, uma história ou a própria identidade. Um livro que, ao mesmo tempo em que emociona, abre caminhos para que novas gerações encontrem nas páginas a representação que tanto buscaram.
